Dos eventos climáticos extremos à falência hídrica global: por que os microrganismos podem ser parte da adaptação da agricultura
Ao longo da história, a produção agrícola foi construída sob a premissa de que determinadas condições climáticas tenderiam a se repetir com alguma previsibilidade. Mesmo em regiões semiáridas, produtores e pesquisadores aprenderam a conviver com ciclos relativamente conhecidos de seca e chuva.
Mas o que estamos observando atualmente é diferente.
Os desafios atuais vão muito além da falta de chuva e incluem uma crescente instabilidade climática.
A frequência dos eventos extremos tem aumentado. Temperaturas recordes tornaram-se mais comuns. Períodos secos mais prolongados são frequentemente interrompidos por chuvas intensas e concentradas. Em muitos casos, o desafio não é apenas a falta de água, mas a crescente instabilidade dos sistemas ambientais.
Diante desse cenário, uma pergunta inevitável surge: como manter a produtividade agrícola em um ambiente cada vez mais imprevisível?
Parte da resposta certamente continuará vindo do melhoramento genético, da irrigação, do manejo e das novas tecnologias digitais. No entanto, uma fronteira que vem ganhando destaque está abaixo dos nossos pés.
O solo abriga uma das maiores reservas de biodiversidade do planeta. Milhões de microrganismos convivem diariamente com as plantas e participam de processos fundamentais para o funcionamento dos ecossistemas. Durante muito tempo, a atenção esteve voltada principalmente para funções relacionadas à nutrição vegetal e ao controle biológico de doenças. Essas aplicações continuam extremamente importantes.
| A maior parte das interações entre plantas e microrganismos ocorre na rizosfera, região diretamente influenciada pelas raízes |
Entretanto, as mudanças climáticas estão ampliando o interesse por outro conjunto de características.
Pesquisadores em diferentes partes do mundo têm buscado compreender como determinados microrganismos conseguem sobreviver sob condições de elevada temperatura, baixa disponibilidade hídrica e outros tipos de estresse ambiental. Mais importante ainda: como essas características podem ser compartilhadas com as plantas por meio das interações que naturalmente ocorrem na rizosfera.
Em ambientes como a Caatinga, essa discussão ganha um significado especial.
Durante milhares de anos, bactérias, fungos e outros microrganismos foram submetidos a condições de intensa restrição hídrica e elevada pressão ambiental. Ao longo desse processo, desenvolveram mecanismos de adaptação que incluem a produção de substâncias protetoras, compostos osmóticos, exopolissacarídeos e diferentes estratégias relacionadas à manutenção da atividade celular em condições extremas.
Talvez estejamos apenas começando a compreender o potencial dessas adaptações.
Quando falamos sobre bioinsumos, muitas vezes pensamos imediatamente em produtividade. Mas, diante do cenário climático que se desenha, talvez uma das perguntas mais relevantes para os próximos anos seja outra.
Como tornar os sistemas agrícolas mais resilientes?
A resposta provavelmente não estará em uma única tecnologia. Não haverá uma solução isolada capaz de resolver um problema tão complexo. Mas é cada vez mais evidente que os microrganismos precisarão ocupar um papel de destaque nessa discussão.
Se o século XX foi marcado pela expansão da agricultura baseada principalmente em fertilizantes, defensivos e genética vegetal, o século XXI pode ser lembrado como o período em que aprendemos a utilizar de forma mais inteligente a biodiversidade microbiana para aumentar a capacidade de adaptação das culturas agrícolas.
O desafio deixou de ser apenas produzir mais.
Passa a ser produzir em um mundo onde a água se torna mais escassa, os eventos climáticos mais extremos e a resiliência dos sistemas produtivos cada vez mais necessária.
Esse novo cenário talvez represente uma das maiores oportunidades para a microbiologia agrícola desde o surgimento dos primeiros inoculantes comerciais.
| Selecionar microrganismos multifuncionais tolerantes ao estresse abiótico (microrganismos elite) é o nosso DNA. |
Prof. Dr. Adailson Feitoza
Universidade do Estado da Bahia - UNEB
Laboratório de Ecologia e Biotecnologia Microbiana do Semiárido - LEBIMS
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